Distribuição espaço-temporal e determinantes da emergência de dengue no Rio Grande do Sul – 2007 a 2023
Resumen
As doenças negligenciadas compõem um grupo de doenças que ainda representam um problema persistente de saúde pública. Dentre essas enfermidades, estima-se que a dengue – arbovirose transmitida por mosquitos do gênero Aedes - exponha a risco de infecção mais de quatro bilhões de pessoas globalmente, sendo considera uma das dez principais ameaças à saúde pública mundial. É considerado que no Brasil, desde a primeira epidemia de dengue registrada em 1986, a doença se encontre em situação de hiperendemicidade com sucessivos períodos de epidemias, gerando relevantes impactos sociais e econômicos. No Rio Grande do Sul, o primeiro caso autóctone da doença foi registrado em 2007 e, embora fosse o estado anteriormente considerado uma área protegida, pode-se observar expansão da doença em seu território, com notificações de casos em 91,15% dos municípios em 2022. Assim, o objetivo geral desta tese foi realizar a análise epidemiológica de dados gerados na rotina de vigilância e controle de dengue no Rio Grande do Sul, a partir de dados da distribuição da doença no estado e seus determinantes disponibilizados nos sistemas de informação nacionais e estaduais. Como objetivos específicos, cita-se a análise da expansão temporal e geográfica da dengue no Rio Grande do Sul no período de 2007 a 2023; a identificação de fatores socioambientais associados à incidência de dengue no Rio Grande do Sul, e o fornecimento de informações para auxílio nas estratégias de prevenção primária mais eficazes. Para isso foi construído um estudo que resultou em dois artigos com utilização de dados secundários de vigilância epidemiológica.O primeiro artigo constituiu-se em um estudo ecológico dos casos de dengue no Rio Grande do Sul no período de 2007 a setembro de 2023, com objetivo que avaliar a expansão geográfica e temporal da dengue no estado durante esse período. Para a descrição espacial foram construídos mapas anuais de taxas de incidência por município; a autocorrelação espacial foi avaliada por meio de Índice Global de Moran e os Indicadores Locais de Associação Espacial (LISA) e a identificação clusters espaços-temporais foi realizada por meio do modelo discreto de Poisson e Modelos Aditivos Generalizados. As análises foram realizadas utilizando o software SatCan e R. Foi observado que no período analisado, o Rio Grande do Sul notificou 126.067 casos de dengue, que resultaram em 142 óbitos, sendo 80,5% do total de casos notificados apenas no biênio 2022-2023. As maiores taxas de incidência e mortalidade foram observadas na mesorregião Noroeste, seguida pela mesorregião Centro-Oriental, observando-se escalada acentuada no risco de dengue a partir de 2019 e intensificação pronunciada a partir de 2022 – indicando uma epidemia em andamento. Já o segundo artigo objetivou identificar fatores ambientais e socioeconômicos associados à incidência de dengue no estado no período de 2013 a dezembro de 2023. Para isso foi avaliada a influência do índice de urbanização e da densidade rural – durante os anos de 2010 e 2022 - e da qualidade ambiental (por meio do Índice de Performance Socioambiental) sobre a taxa média de incidência de dengue nas diferentes mesorregiões do estado por meio da análise de regressão geograficamente ponderada (GWR) utilizando o software R. Observou-se que durante o período analisado foram notificados 127.945 casos de dengue no estado, sendo 82,74% desses notificados entre 2022 e 2023 e que as variáveis avaliadas aturam de forma heterogênea sobre a expansão da doença nas diferente mesorregiões do estado, com destaque para a variável densidade rural que em 2022 demonstrou expansão da influência para mesorregião Sudoeste e consolidação nas mesorregiões Nordeste e Metropolitana. Os resultados observados nesta tese demonstram a situação epidemiológica alarmante da dengue no Rio Grande do Sul, com expansão por suas mesorregiões e com diferentes fatores socioambientais influenciando a incidência da doença e sua expansão. Espera-se, assim, que tais resultados possam orientar a tomada de medidas de controle e prevenção eficazes e direcionadas para as populações de risco.

