Associação entre o estado nutricional, consumo alimentar e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade na infância
Resumen
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento que se inicia na infância e pode persistir na vida adulta. Sua etiologia envolve fatores genéticos e ambientais, destacando-se o padrão alimentar e o excesso de peso. Evidências sugerem associação bidirecional entre TDAH e obesidade, indicando que o transtorno pode tanto predispor quanto resultar de alterações no estado nutricional. Estudos também apontam que o consumo frequente de alimentos ultraprocessados agrava os sintomas de TDAH, enquanto uma alimentação equilibrada, rica em alimentos in natura, pode atenuá-los. O cortisol, hormônio regulado pelo eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), pode mediar essas associações, pois crianças com TDAH tendem a apresentar hipoatividade do eixo HPA, enquanto obesidade e dieta inadequada associam-se à sua hiperatividade. Contudo, ainda são escassos os estudos longitudinais que investigam essas relações de forma integrada na infância. Esta tese teve como objetivo investigar a bidirecionalidade das associações entre sintomas de TDAH, estado nutricional e consumo alimentar na infância, bem como avaliar o possível papel mediador do cortisol capilar na relação entre TDAH e o consumo de alimentos ultraprocessados. Utilizou-se dados da Coorte de Nascimentos de 2015 de Pelotas, com informações
coletadas aos 2, 4 e 6–7 anos de idade. O primeiro artigo avaliou a relação entre sintomas de TDAH e estado nutricional por meio de modelos de painel cross-lagged e análises transversais. Identificou que sintomas de TDAH aos 4 anos associaram-se
positivamente à estatura, e aos 6–7 anos associaram-se a maior massa livre de gordura, peso, estatura e IMC. Apesar disso, as análises longitudinais não indicaram relação bidirecional estatisticamente significativa entre TDAH e IMC. O segundo artigo
examinou o efeito cumulativo e os períodos sensíveis do consumo de alimentos sobre os sintomas de TDAH. Crianças com consumo consistentemente elevado de alimentos in natura apresentaram menores sintomas de TDAH aos 6–7 anos, enquanto aquelas com alto consumo de ultraprocessados apresentaram sintomas mais elevados. Identificou-se que os 4 e 6–7 anos constituem períodos sensíveis nas quais a alimentação exerce maior influência sobre o desenvolvimento neurológico. O terceiro artigo avaliou a relação bidirecional entre sintomas de TDAH e o consumo de alimentos ultraprocessados aos 4 e 6–7 anos, além do possível papel mediador do cortisol capilar. Observou-se que sintomas de TDAH aos 4 anos associaram-se ao maior consumo de ultraprocessados aos 6–7 anos nas análises brutas, mas essa associação perdeu significância após ajuste. Não houve associação na direção oposta, e o cortisol capilar não apresentou efeito mediador nessa relação. Conclui-se que os sintomas de TDAH associam-se a indicadores do estado nutricional e no consumo alimentar ao longo da infância, especialmente com maior consumo de alimentos ultraprocessados. Os resultados não identificaram atuação do cortisol capilar como mecanismo explicativo da relação entre TDAH e consumo de alimentos ultraprocessados. Os achados reforçam a importância de promover hábitos
alimentares saudáveis desde os primeiros anos de vida como estratégia para favorecer o crescimento adequado e apoiar o desenvolvimento neurológico na infância.

