Associação entre violência por parceiro íntimo e consumo de álcool e tabaco em mães, durante a pandemia da COVID-19, no extremo sul do Brasil
Resumo
A violência por parceiro íntimo é um problema de saúde pública com implicações
significativas para a saúde física e mental das mulheres, impactando todas as classes
sociais e econômicas. Durante a pandemia de COVID-19, o isolamento social e a
sobrecarga doméstica intensificaram essa problemática, destacando a necessidade
de entender como a violência influencia comportamentos relacionados à saúde, como
o consumo de álcool e tabaco. O presente estudo verificou a associação entre
violência por parceiro íntimo e a mudança no consumo de álcool e tabaco entre
mulheres que tiveram filhos em 2019, na cidade de Rio Grande, durante os primeiros
meses da Pandemia da COVID-19. Este estudo utilizou um delineamento transversal
com dados provenientes de um projeto maior, a "Coorte de nascidos vivos de Rio
Grande". A coleta de dados ocorreu em dois momentos: durante o estudo perinatal,
em 2019, e na segunda onda do estudo WebCOVID-19, em 2020. A amostra foi
composta por 880 mulheres que relataram viver com companheiros e responderam
questões específicas sobre consumo de álcool, tabaco e exposição à violência por
parceiro íntimo. A violência foi medida com um instrumento adaptado da Organização
Mundial da Saúde, enquanto o consumo de álcool e tabaco foi avaliado por meio de
perguntas sobre a mudança nesses comportamentos durante a pandemia. As análises
estatísticas incluíram o teste do qui-quadrado (χ²) de Pearson para análise bivariada
e regressão de Poisson para análises multivariadas, com estimativas de razões de
prevalência e intervalos de confiança de 95%. Todas as análises foram realizadas
com o software Stata, versão 16. Entre as mulheres tabagistas e aquelas que
consumiam álcool durante a pandemia, a prevalência de violência por parceiro íntimo
foi de 28% e 21,5%, respectivamente. Dessas mulheres, 19,2% aumentaram o
consumo de álcool e 51,5% aumentaram o consumo de tabaco durante o período
analisado. Observou-se associação significativa entre violência por parceiro íntimo e
aumento do consumo de tabaco. As mulheres expostas à violência por parceiro íntimo
durante a pandemia da COVID-19, apresentaram uma probabilidade 78 (IC95% 1,24-
2,56) vezes maior de aumentar o consumo de tabaco. Em contrapartida, não foi
encontrada associação significativa entre a violência por parceiro íntimo e o aumento
do consumo de álcool (1,05%; IC95% 0,56-1,94). Os achados sugerem que mulheres
expostas à violência por parceiro íntimo durante os primeiros meses da pandemia
tiveram maior probabilidade de aumentar o consumo de tabaco, o que pode agravar
os riscos à saúde dessas mulheres. Em contrapartida, não foi observada associação
significativa entre o consumo de álcool o que aponta para a complexidade desse
comportamento em contextos de crise. Conclui-se que é muito importante desenvolver
ações e intervenções voltadas à proteção e ao cuidado integral de mulheres que
sofrem violência por parceiro íntimo, especialmente em situações de crise como a
pandemia.